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26 de maio de 2013

RESENHA DO LIVRO: SIMONAL: QUEM NÃO TEM SWING MORRE COM A BOCA CHEIA DE FORMIGA


Show em Mí...mica: crime e castigo de Alonso
Alonso explora as lacunas da concepção ideológica de MPB que se consolidou à época da ditadura, mas, como cantaria Simonal, se apresenta como “um menino de mentalidade mediana”.

Desde a segunda edição do Festival Internacional da Canção (FIC), em 1967, a rede Globo, percebendo sua penetração social, se encarregou de patrocinar e associar seu nome ao evento, fato que hoje, no site memoriaglobo.globo.com é divulgado como se a emissora tivesse sido a “tábua de salvação” para a cultura e a resistência durante os chamados “anos de chumbo” no Brasil. Esta imagem de resistência decantada anos após os fatos, ou sua construção, no melhor estilo de invenções de tradições descrito por Eric Hobsbawm, é problematizada, de maneira análoga, no campo da MPB por Alonso em “Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”. A associação dessa memória de resistência a artistas e instituições é muito útil hoje, para fazer referência a um passado em que a resistência não se verificou dessa forma panfletária que se conta uma história sobre a história; nisso reside a crítica de Alonso – ou a de Paulo Cesar de Araújo, já que o mesmo autor já esboçara esta ideia, ao discutir ditadura e música popular em “Eu não sou cachorro não”.

“Era setembro de 1968”, citando o autor, e um público que vaiava Chico Buarque com uma música acusada de abusar do lirismo, ovacionaria Simonal um ano mais tarde, testa de ferro de um movimento do qual foi porta voz, mas pouco contribuiu como fundador, de fato, tendo composto parcas canções de baixa proliferação, as mais famosas, talvez, tributo a Martin Luther King e Mustang Cor de Sangue. O grande Simona é transformado, por Alonso, em mártir de um sistema político-cultural pautado em valores de uma dicotomia tradição/modernidade – a que correspondem valores de direita e esquerda – que exclui tudo o que não se encaixa nem em um lado nem em outro dessa taxonomia. A exclusão gerada pela dicotomia, curiosamente, é mais um ponto em comum entre a obra de Gustavo e Paulo Cesar de Araújo.

Alonso faz um detalhado panorama da música que hoje não cabe o rótulo de popular – se é que um dia coube, como o próprio autor questiona –, considerando que foi, em sua maioria, produzida por universitários, que não se enquadram na categoria de popular, questionando seu lugar ideológico à época e atualmente, e toda a construção que se deu desta ideologia, mas se perde na obsessão pelo ostracismo de Simonal, esquecendo que outros artistas – ou precisando esquecer, por finalidades acadêmicas, já que o texto se trata de uma tese de mestrado –, igualmente talentosos, também sofreram este exílio dentro do próprio país, haja vista o contemporâneo daquele Marku Ribas, músico e igualmente grande performer, caso de insucesso em que uma questão de adesismo a um sistema governamental não se aplicaria. Aliás, o autor que tanto decanta a antropofagia ou a “deglutição” como o próprio talvez preferisse, não cita uma vez sequer o músico Marku Ribas, um grande incorporador de elementos de outras culturas em sua produção.

Mais uma vez indo na esteira das ideias de Paulo Cesar de Araújo – ou de Gramsci –, entendendo que a censura se dá muito mais pela sociedade do que pelos mecanismos repressores diretos do governo, Alonso demonstra uma filiação latente às ideias de Paulo Freire, em que a sociedade, sem encontrar liberdade de expressão, de oprimida passa a opressora, censurando os artistas nos hiatos do governo. Além da semelhança, no conteúdo, com o clássico de Paulo César Araújo, na proposta de ser um panorama musical de uma época, nas questões levantadas e no posicionamento ideológico, curiosamente, apresenta o mesmo estilo de escrita – e.g. formula parágrafos compostos por interrogações – e de argumentar, em alguns momentos Simonal soa como paráfrase de Eu não sou cachorro não; imagino que Araújo tenha se sentido orgulhoso de escrever a orelha de uma obra feita à imagem e semelhança da sua. Alonso chega, inclusive, ao cúmulo de escrever um capítulo sobre o velório de Simonal (Capítulo 11 – O velório da memória), assim como Paulo Cesar dedicou um capítulo ao velório de Paulo Sérgio (Capítulo 19 – O jogo da memória).

O discípulo de Paulo Cesar de Araújo, para redimir Simonal, adere ao piche fora de época, e picha todos os outros artistas da época, para mostrar que todos são constituídos de vícios e virtudes, ora, isso não é uma grande descoberta, a presença do id e do superego – ou equivalentes, conforme a corrente teórica que se queira adotar – nos seres humanos não é teoria recente. Na esteira freudiana segue o romance de Dostoievski parafraseado no título da resenha. A obra explora o lado vil e conflituoso da mente, e o agir da estrutura de superego que pune o corpo pelos desvios do id. Transpondo a ideia do plano individual para o social, e da obra do russo para o texto do brasileiro, o “crime” que Simonal cometeu foi o de não se render a padrões ou a uma identidade fixa, vivendo nos anos 70 uma permissão somente dada no século XXI, e o castigo veio de uma sociedade que cobrava um comportamento rígido e idiossincrático dos artistas frente ao governo: o castigo do ostracismo, castigo este que, talvez, o autor, com sua obra paráfrase, o “Show em Mí...mica” – entendendo a mímesis na concepção platônica –, também esteja condenado, após seus 15 minutos de fama – ocorridos na TVBrasil, antiga TVE – tão caros aos tempos hipermodernos ou líquidos em que vivemos, já profetizados por Andy Warhol.

Com a transcrição de documentos, ao final do livro, Alonso endossa a questão já muito debatida por estudiosos de até onde vai a fidedignidade da “verdade documental”, afinal, até ela – e muito foi, especialmente, na ditadura – pode legitimar uma realidade através de uma versão deturpada dos fatos. O autor não é explicitamente panfletário, porém Simonal surge do nada em diversos momentos da obra. Aspirante a jornalista, Gustavo faz uma construção textual que lembra alguns leads jornalísticos, modelo idêntico, aliás, ao da Veja, revista tão cara ao autor, amplamente citada ao longo do texto, e cabe aqui uma ambiguidade na palavra longo. No auge da prolixidade, na página 199, como observou o blogueiro Sidney Jan, o autor faz uma discussão acerca de um acento; Alonso não só é aspirante a jornalista e a escritor, mas também a linguista, ilustra o exemplo; é aspirante a psicólogo social, haja vista a página 70, em que discorre sobre a “Lei de Gerson”, a romancista e a teórico da arte. É crítico musical inato e ainda possui disposição intelectual para tecer comentários maledicentes sobre seu(s) objeto(s) de estudo, a título de exemplo, a nota 27 do capítulo 9, na página 265, em que fala sobre a tentativa frustrada de conseguir uma entrevista com Luiz Ilogti.

No final das contas ou das letras, Alonso peca por faltar nele exatamente o que possuía Simonal: identidade. Talvez a admiração por encontrar no músico o que falta em seu ethos tenha feito o autor romantizar o ostracismo do artista. Mas esta concepção limitada, que se perde em excessivas citações, fontes que se contradizem e teorias já gastas é um comportamento bem típico da imaturidade intelectual dos alunos dos cursos de humanas das universidades federais recém-chegados à academia. Pena que Alonso não tenha superado este momento e que um assunto tão carente de um debate profundo à luz dos estudos contemporâneos das ciências humanas tenha se perdido nas mãos desse cidadão niteroiense, em 471 páginas de redundâncias, alguns erros de gramática que passaram incólumes pelos três revisores da editora e uma certa prepotência pueril. Mas isto é Brasil, como prega o dito popular e, no final das contas, é “sacudim, sacundá, sacundim, gundim, gundá!”.


Resenha escrita por Valentina Razzah

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